Histórico

Gravura existente na Universidade de Amsterdã (do período entre 1809 e 1845). As legendas dizem: em alemão: O Miriqui (mono), Pr. Neuwied, Ateles Hypoxanthus. O polegar-curto de braços longos [der langarmige Kurzdaum], Spix, Brachyteles macrotarsus; em francês: o polegar-curto de braços longos [le court pouce à long bras].

Primeira descrição científica

“Ao final do século XVIII chegaram à Europa alguns relatos sobre um macaco de coloração parda, mãos de quatro dedos, membros alongados e cauda preensil, certamente referindo-se ao muriqui. O então zoólogo francês Etienne Geoffroy Saint Hilaire, com base nesses relatos, publicou nos Anais do Museu de História Natural de Paris a descrição de uma nova espécie, que batizou de Ateles arachnoides. Em 1809, de posse de um exemplar de muriqui levado do Museu d’Ajuda, de Lisboa, Geoffroy redescreveu a espécie, acompanhada de uma ilustração.

“Entre 1815 e 1817 o Príncipe Maximiliano de Wied Neuwied percorreu a Mata Atlântica do Rio de Janeiro à Bahia. Ele coletou alguns muriquis no sul da Bahia que considerou diferentes de Ateles arachnoides descrita por Geoffroy, dando-lhe o nome de Ateles hypoxanthus. Dentre as diferenças, ele destacou que a nova espécie tinha polegares rudimentares, ausentes na espécie descrita por Geoffroy. Wied enviou exemplares de muriquis para seu colega alemão Heinrich Kuhl. Ambos publicaram o nome Ateles hypoxanthus no ano de 1820, causando uma certa confusão sobre quem deve ser considerado o autor da espécie.

“É bom lembrar que o nome Ateles já tinha sido usado por Geoffroy para os macacos-aranha, que vivem na Amazônia e América Central. Ele acreditava que muriquis e macacos-aranha deveriam pertencer ao mesmo gênero. Entretanto, Johann von Spix, zoólogo do Museu de Muique, que viajou pelo Brasil de 1817 a 1820, usou o nome Brachyteles macrotarsus para designar os muriquis. em 1870, o britânico John Edward Gray, organizando as informações sobre os muriquis, considerou válido o gênero Brachyteles, de Spix, mas não o nome macrotarsus. Reafirmou, então, a existência de duas espécies: Brachyteles arachnoides, sem dedo polegar, e Brachyteles hypoxanthus, com pequeno polegar. O gênero Ateles continuou válido apenas para os macacos-aranha.

“Em uma publicação de 1912/1913, o zoólogo norte-americano Daniel Elliot argumentou que era válida apenas uma espécie de muriqui, Brachyteles arachnoides, e que a presença ou ausência de pequenos polegares varia de indivíduo para indivíduo. Entretando, em 1944, o zoólogo brasileiro Carlos da Cunha Vieira considerou que existem duas subespécies, B. arachnoides arachnoides e B. arachnoides hypoxanthus, mas desistiu posteriormente dessa separação. Em 1971, Álvaro Aguirre publicou a sua monografia sobre os muriquis, considerando a existência de uma única espécie, Brachyteles arachnoides, sem citar subspécies.

Até os anos 1990, uma única espécie

“Os muriquis foram considerados espécie única até a década de 1990, quando os estudos sobre eles começaram a se intensificar. Com base em novos dados genéticos, morfológicos e estudos de animais de cativeiro, os cientistas concluíram que deveria se tratar mesmo de duas espécies: o muriqui-do-sul, Brachyteles arachnoides, e o muriqui-do-norte, Brachyteles hypoxanthus.

“O muriqui-do-norte tem o rosto e região genital despigmentados, além de um pequeno dedo polegar, enquanto a espécie do sul não apresenta despigmentação e nem vestígio do dedo polegar. Os muriquis-do-norte também nascem com o rosto e a região genital totalmente escuros, mas, à medida em que vão envelhecendo, ocorre a perda gradativa da cor, tornando essas regiões mais claras.

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O trabalho de Aguirre

“Em 1971, o zoólogo capixaba Álvaro Aguirre publicou um extenso trabalho sobre os muriquis, envolvendo aspectos da taxonomia, distribuição geográfica, comportamento, ecologia e conservação. Editado pela Academia Brasileira de Ciências, o trabalho tornou-se um clássico sobre os muriquis e uma base para as pesquisas que se sucederam.

“Aguirre fez um meticuloso trabalho de pesquisa nos museus, biblioteca e, por fim visitou dezenas de matas, de São Paulo à Bahia, em busca do raro muriqui. Com essas informações, ele pôde construir um mapa da área em que a espécie ocorria antes do desmatamento e listar a maioria das áreas onde a espécie havia sobrevivido.

“O trabalho de Aguirre demonstrou que os muriquis só ocorrem na Mata Atlântica brasileira e que, no passado, eram encontrados de Salvador até o norte do Paraná. Aguirre acreditava que os muriquis tinham sido extintos do Paraná e demonstrou que ainda havia populações isoladas nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia. Ele pôde observar que em geral as populações que sobraram eram muito pequenas e que muitas corriam o risco de desaparecer em pouco tempo. Aguirre também chamou atenção para o fato de os muriquis serem encontrados normalmente em regiões serranas, com relevo acidentado, o que poderia explicar sua ausência no norte do Espírito Santo e extremo sul da Bahia.

Várias pequenas populações desapareceram

“Os estudos de outros pesquisadores nas décadas de 1980 a 2000 demonstraram que, como previra Aguirre, várias pequenas populações presentes na década de 1960 desepareceram, inclusive todas as que ele tinha registrado na Bahia. Uma descoberta interessante foi uma população de muriquis no norte do Paraná, onde Aguirre previra sua existência no passado, considerando-a localmente extinta.

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“O muriqui começou a ganhar fama mundial com a campanha liderada por Russell Mittermeier, Célio Vale, Adelmar Coimbra Filho e Ibsen de Gusmão Câmara, alertando que o maior macaco das Américas, restrito à Mata Atlântica brasileira, corria sério risco de extinção. Foi nesse contexto que Karen B. Strier, então aluna da Universidade de Harvard, EUA, resolveu direcionar sua tese de doutorado para o estudo dos muriquis, dando início ao mais longo e importante estudo sobre a vida destes primatas. Desde então, os muriquis vem sendo acompanhados continuamente em Caratinga, Minas Gerais, com a colaboração de pesquisadores e estudantes brasileiros. [Não só em Caratinga: há décadas são estudados em São Paulo, no Parque Carlos Botelho, e no Espírito Santo.]

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Extraído de O Muriqui, Símbolo da Mata Atlântica, de autoria de Sérgio Lucena Mendes, Mariana Petri da Silva, Mariana Zanotti Tavares de Oliveira e Karen Barbara Strier. Publicado pelo Instituto de Pesquisas da Mata Atlântica (IPEMA), Vitória, ES, 2014.

Excelente publicação de divulgação científica, de leitura muito recomendada. 156 páginas, com muitas fotografias, ilustrações e mapas.