Ecologia

Grupo de muriquis | Foto: Kenny Ross (Wikimedia Commons)

O muriqui é endêmico da Mata Atlântica

O gênero Brachyteles é endêmico do bioma Mata Atlântica (IBGE, 2004). As duas espécies ocorrem predominantemente em fisionomias distintas. o muriqui-do-sul, B. arachnoides, é típico da floresta ombrófila densa em todas suas formações, baixo-montana, montana e alto-montana, embora existam também alguns registros da espécies em floresta estacional semi-decídua, floresta ombrófila mista (mata de araucária), e zonas de transição [1]. Estudos biogeográficos baseados em espécimes de museu sugerem que os muriquis não habitam florestas em altitudes próximas ao nível do mar (p.ex. Grelle, 2000), entretanto existem relatos de ocorrência em altitudes inferiores a 200 metros de altitude [2], e registros ao nível do mar ao longo da costa do estado de São Paulo [3].

Do nível do mar a mais de 1.200 m de altitude

Como limite superior, há avistamentos em florestas acima de 1.200 metros na Serra da Mantiqueira, São Paulo [4]. Portanto, potencialmente os muriquis ocorrem ou ocorriam em todas as florestas úmidas da região Sudeste e parte do Sul do Brasil desde o nível do mar até os limites superiores das florestas alto-montanas. Atualmente, no Estado do Rio de Janeiro, os muriquis são encontrados nas áreas mais remotas e escarpadas de grandes remanescentes florestais [5]. É possível que este padrão não reflita uma preferência de hábitat, mas sim apenas a disponibilidade atual de áreas florestadas com reduzida pressão de caça.

(Fig. 1) Semi-braquiação com ajuda da cauda | Foto: Kenny Ross (Wikimedia Commons)

Florestas primárias e secundárias

Os muriquis eram considerados primatas típicos de florestas primárias [6], entretanto, foi registrada a ocorrência e adaptabilidade de Brachyteles hypoxanthus em hábitats muito alterados, sendo provavelmente favorecido por mosaicos florestais [7]. A boa adaptação da espécie a matas secundárias provavelmente explica sua sobrevivência em alguns fragmentos florestais pequenos e alterados [8].

Brachyteles arachnoides tem ocorrência atual principalmente em grandes blocos florestais, em florestas maduras, e são escassos os registros da espécie em florestas secundárias recentes, ou pequenos fragmentos florestais, como ocorre, por exemplo, na Fazenda Barreiro Rico (Anhembi, SP) e em Castro (PR). Essa ausência, contudo, pode estar relacionada à supressão de indivíduos devido à caça. A segregação espacial no uso dos estratos florestais é um fator chave na estruturação de comunidades de primatas neotropicais [9]. Os muriquis, assim como outros primatas de grande porte, tendem a ocupar os estratos superiores da floresta.

O muriqui-do-norte utiliza predominantemente as árvores do dossel e emergentes, embora também seja avistado no estrato arbustivo [10]. Observações sistemáticas de B. arachnoides em um hábitat com mínima ou nenhuma perturbação antrópica no Parque Estadual Carlos Botelho indicam que este padrão de uso do espaço vertical da floresta é semelhante para o muriqui-do-sul [11], tendo sido registrado o uso preferencial do estrato superior da floresta [12]. Os muriquis têm hábitos diurnos e arborícolas, podendo deslocar-se rapidamente pela mata devido a adaptações morfológicas tais como a cauda preensil, braços longos e mãos em forma de ganchos [13].

Semi-braquiação

O modo principal de locomoção é por meio da semi-braquiação (fig. 1), movimentação realizada com auxílio dos braços e mãos alongados, característico da subfamília Atelinae. Também podem utilizar locomoção quadrúpede (figura 2) e realizar saltos (fig. 3).

(Fig. 2) Locomoção quadrúpede | Foto: Kenny Ross (Wikimedia Commons)

Podem descer, esporadicamente, ao solo para beber água, se alimentar e ingerir terra [14]. Também é conhecida sua capacidade de atravessar pequenas distâncias pelo chão, especialmente em áreas de hábitat alterado (clareiras e entre fragmentos) [15]. Recentemente, foi documentado um aumento da permanência de indivíduos de B. hypoxanthus no chão, exercendo atividades como descanso e deslocamento, em um dos grupos estudados na RPPN Feliciano Miguel Abdala [16]. Nessa mesma localidade, as interações sociais e os hábitos de beber água, caminhar e se alimentar no chão, tornaram-se mais intensos nos últimos anos, sendo que os machos o fazem com maior frequência do que as fêmeas, e estas se engajam nessas atividades terrestres mais frequentemente na presença de machos [17]. Tabacow e colaboradores (2009b) sugerem que isso pode representar uma tradição local, como já descrito para outras espécies de primatas.

(Fig. 3) Muriqui saltando (ainda sem soltar a cauda) | Foto: Kenny Ross (Wikimedia Commons)

Dieta essencialmente herbívora

Os muriquis-do-norte (B. hypoxanthus) são, em sua essência, folívoro-frugívoros, mas também incluem em sua dieta flores, brotos de bambus e de samambaias [18] (figuras 4 e 5). Os estudos realizados focando a dieta da espécie destacam a capacidade de consumir grandes quantidades de folhas e sua dentição parece refletir essa preferência [19]. O sistema digestivo também possui adaptações à folivoria e é caracterizado por um ceco avantajado [20]. Além disso, o grande tamanho corporal dos muriquis os habilitam a consumir grande quantidade de alimentos pouco energéticos.

A dieta do muriqui-do-sul também é essencialmente herbívora, composta basicamente por folhas jovens e maduras e frutos verdes e maduros, mas também incluindo uma garnde diversidade de itens como brotos, flores, sementes, néctar, casca de árvores, lianas e epífitas [21]. A ingestão indireta de larvas e insetos de forma acidental, como frutos parasitados, pode ocorrer, mas a ingestão de insetos como fonte primária de nutrientes não foi anteriormente observada [22]. O muriqui-do-sul incorpora mais frutos em sua dieta do que muriqui-do-norte, de acordo com as variações e disponibilidade sazonal do tipo de alimento [23]. frutos utilizados na dieta do muriqui–do-sul são abundantemente disponíveis nos remanescentes de floresta contínua [24] onde, apesar de preferencialmente frugívoros, podem se alimentar de folhas quando frutos maduros não estão disponíveis [25].

(Fig. 4) Muriqui-do-norte alimentando-se de folha | Foto: Carla B. Possamai (Projeto Muriqui de Caratinga)

A ocorrência de folivoria parece restringir-se àqueles períodos de escassez de frutos no ambiente [26]. frutos são ingeridos em grandes quantidades por sua alta disponibilidade de energia metabolizável prontamente disponível. Folhas são ingeridas como alimento volumoso e as folhas imaturas, de fácil digestão, são largamente referenciadas como ricas fontes protéicas. Entretanto, frutos constituintes da dieta contém proteínas que suprem os requerimentos metabólicos das espécies de primatas neotropicais, incluindo muriquis [27]. Em florestas no Estado de São Paulo, evidenciou-se que muriquis são dispersores primários de sementes de espécies arbóreas climácicas [28], sendo, portanto, fundamentais para a manutenção de florestas em estágios avançados de sucessão e, conse-quentemente, de estoques expressivos de carbono florestal da mata Atlântica.

(Fig. 5) Muriqui-do-norte alimentando-se de flores | Foto: Carla B. Possamai (Projeto Muriqui de Caratinga)

Área de uso

O tamanho da área de uso dos muriquis varia de acordo com o tamanho do grupo social e a qualidade do hábitat [29]. Os dados disponíveis para tamanho de área de uso para B. hypoxanthus são: 168 ha para um grupo de 23-27 indivíduos, na RPPN Feliciano Miguel Abdala [30]; 309 ha para 57-63 indivíduos, na RPPN Feliciano Miguel Abdala [31]; 339 ha para 40-44 indivíduos, no Parque Estadual da Serra do Brigadeiro [32]; 257 ha para 39-42 indivíduos, na RPPN Mata do Sossego (Mendes, 2007). Grupos vizinhos podem sobrepor parte de suas áreas de uso, onde ocorrem encontros ocasionais entre eles. nestes eventos, são observadas interações vocais e exibições agressivas [33]. Para B. arachnoides, estimativas preliminares indicam uma área de uso de até 1.500 ha para um grupo de 40 indivíduos [34] em ambiente de floresta contínua do Parque Estadual Carlos Botelho. Em outras localidades, indivíduos são limitados pela disponibilidade restrita de hábitat.

Abundância populacional

Os muriquis-do-norte estão presentes em, pelo menos, 14 localidades, situadas nos estados de minas Gerais, Bahia e Espírito Santo, com densidades bastante variáveis [35]. é difícil afirmar se as diferenças populacionais se devem às características naturais dos fragmentos em si ou às pressões sofridas pelas populações (caça, deterioração ambiental, incêndios e doenças). Uma das maiores populações e a que apresenta maior densidade é a que habita a RPPN Feliciano Miguel Abdala, com 29 ind./km2 [36]. Esse estudo estimou com boa acurácia o tamanho populacional total, encontrando um número muito próximo ao de indivíduos efetivamente conhecido naquela população. Para outras populações foram registradas densidades mais baixas, como no Parque Estadual do Rio Doce, com 1,8 ind./km2, e na RPPN Mata do Sossego, com 4,9 ind./km2 [37]. Estudos recentes elevaram a estimativa da população total de muriquis-do-norte de aproximadamente 500 [38], para cerca de 900 indivíduos [39].

Apesar de frequentemente citado como ocorrendo em grandes populações nas florestas do estado de São Paulo, as populações selvagens do muriqui-do-sul estão seriamente reduzidas, inclusive devido à prática de caça ilegal [40]. Há cerca de 20 anos estimou-se que a maior população selvagem de muriqui-do-sul ocorria na região sul do Estado de São Paulo, no Parque Estadual de Carlos Botelho, com uma densidade estimada de 7,3 ind./km2, abrigando entre 500 e 800 animais [41]. Estimativas de densidade e tamanho populacional de acordo com diferentes tipos de hábitat, em diferentes localidades, são incipientes, mas infere-se que o tamanho de grupos e de população depende do hábitat disponível, e, em floresta contínua, os grupos podem contar com até 45 animais [42].

Notas

[1] Cunha et al., 2009 | [2] Aguirre, 1971 | [3] Talebi, obs. pess. | [4] Talebi & Soares, 2005 | [5] Cunha, 2004; Loretto & Rajão, 2005 | [6] De Moraes, 1992 | [7] Strier & Fonseca, 1996/1997 | [8] Mendes et al., 2005a | [9] Peres, 1993; cunha et al., 2006 | [10] Almeida-Silva et al., 2005 | [11] Talebi, 1999; Talebi & Ades, 2003 | [12] Talebi, 1994 | [13] Rosenberger & Strier, 1989 | [14] Dib et al., 2001 | [15] Dib et al., 1997 | [16] Mourthé et al., 2007 | [17] Tabacow et al., 2009b | [18] Dias, 2003; Lemos de Sá, 1988; Moreira, 2008; Rímoli & Ades, 1997; Strier, 1991, 2000 | [19] Zingeser, 1973 | [20] Hill, 1962 | [21] Strier, 1991; Talebi et al., 2005 | [22] Talebi, 2005 | [23] Strier, 1991; Talebi, 1994; De Carvalho et al., 2004; Talebi et al., 2005 | [24] Talebi et al., 2006 | [25] Strier, 1991 | [26 ]Milton, 1984; Strier, 1991 | [27] Ganzhorn et al., 2009 | [28] (Martins, 2006) | [29] Moraes et al., 1998; Dias & Strier, 2003; coles, 2009 | [30] Strier, 1987 | [31] Dias & Strier, 2003 | [32] Moreira, 2008 | [33] Barbosa et al., 2007 | [34] Talebi, 2005 | [35] Mendes et al., 2005a & melo, 2010 | Mendes et al., 2005a & melo, 2010 | [36] Almeida-Silva et al., 2005 | [37] Dias et al., 2006 | [38] Strier, 2000 | [39] Mendes et al., 2005a, Mendes et al., 2008c | [40] Talebi, 2005 | [41] Pacagnella, 1991; Mittermeier et al., 1982 | [42] Coles, 2009.

[Reproduzido do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Muriquis, conhecido como PAN Muriqui, publicação do ICMBio de 2011. O PAN Muriqui pode ser acessado clicando-se aqui.]