Morfologia

Características gerais

Os muriquis possuem o maior tamanho corporal e o maior índice cérebro/tamanho corporal dentre os primatas neotropicais [1] e têm sido considerados os maiores platirrinos viventes [2]. Embora Peres (1994) questione esta informação, a espécie é amplamente reconhecida como o “maior primata neotropical” ou “maior primata das Américas”. Sua cabeça é arredondada e a face achatada. Os braços são longos e mãos usualmente em forma de gancho (fig. 3). A cauda é longa e preensil (fig. 4), excedendo o comprimento do corpo, sendo o terço final glabro na face ventral, servindo de superfície táctil (fig. 5). Apresentam face, palmares, plantares e parte glabra da cauda de coloração negra (fig. 6) [3].

(Fig. 3) Mãos em forma de gancho | Foto de Peter Schoen (Wikimedia Commons)

Os machos possuem um escroto avantajado [4] e as fêmeas um clitóris proeminente, o que facilita a identificação dos sexos [5]. Outra característica do gênero é que indivíduos jovens e adultos de ambos os sexos têm a região abdominal projetada, formando uma barriga, provavelmente devido ao grande volume de folhas ingeridas (Hill, 1962), o que pode dificultar a identificação de fêmeas gestantes em semanas iniciais de gestação [6]. Apresentam dentição notoriamente compatível tanto para a frugivoria quanto para a folivoria, com uma fórmula dentária i2/2, c1/1, pm3/3, m3/3 = 36 [7].

(Fig. 4) Sustentando o peso do corpo com ajuda da cauda preensil | Foto: Paulo B. Chaves (Wikimedia Commons)

O sistema digestivo também contém um estômago simples e um ceco relativamente bem desenvolvido [8], sugere a ocorrência de digestão fermentativa de carbohidratos estruturais em seu intestino delgado, o que confere grande eficiência na conversão de energia a partir de alimentos ricos em fibras [9].

(fig. 5) Detalhe da extremidade distal da cauda | Foto: Braz Antonio Pereira Cosenza (PAN Muriqui)

Coloração de pelagem e pele

O muriqui-do-sul (B. arachnoides) possui pelagem espessa e macia de cor predominantemente bege-marrom-amarelada, e existem variações cromáticas regionais com colorações de pelagem variando em tonalidades aparentes de cinza-claro até bege-avermelhado escuro [10]. A pelagem dos muriquis-do-norte (B. hypoxanthus) também é espessa e macia, recobrindo todo o corpo. A coloração muitas vezes não é uniforme, podendo ser de cor amarelo oliváceo, de tons mais ferrugíneos ou acinzentados (Figura 7). Possuem a face nua e nascem com o rosto e genitálias negras, áreas que se tornam mais claras (com manchas róseas) durante o amadurecimento até a fase adulta, em uma progressiva despigmentação [11].

(Fig. 6) Mão de muriqui-do-sul | Foto de Miguelrangeljr (Wikimedia Commons)
(Fig. 7) Coloração de uma fêmea de muriqui-do-norte (com filhote) | Foto de Bart Van Dorp (Wikimedia Commons)

Dimorfismo sexual

Os muriquis são considerados sexualmente monomórficos no tamanho corporal [12], tamanho dos caninos [13] e coloração da pelagem [14], mas Lemos de Sá et al., (1993) apontaram a presença de dimorfismo no tamanho dos caninos em B. arachnoides e ausência em B. hypoxanthus. Todavia, Leigh e Jungers (1994) afirmam que estas diferenças no comprimento dos caninos podem não ser estatisticamente significantes, de forma que também não existiria dimorfismo sexual para a espécie do sul. Apesar da ausência de dimorfismo sexual, a distinção entre machos e fêmeas no campo é relativamente fácil por meio da observação das genitálias, já que os machos adultos possuem testículos notadamente grandes e as fêmeas possuem clitóris pendular [15].

(Fig. 8) Polegar vestigial do muriqui-do-norte | Foto: Saulo Coutinho (PAN Muriqui)

Características diagnósticas

As principais diferenças entre ambas as espécies de muriquis referem-se à pigmentação da face em indivíduos adultos e ao polegar [16]. Indivíduos de B. arachnoides retêm a face negra ao longo de toda a vida, sem a despigmentação que pode ser observado em indivíduos adultos de B. hypoxanthus, e que gera padrões individuais nesta espécie (também fig. 7). Alguns indivíduos adultos de B. arachnoides podem apresentar leve despigmentação e ocorrência de pequenas manchas branco-roseadas na região da genitália [17]. Brachyteles hypoxanthus apresenta um polegar vestigial (Figura 8), enquanto em Brachyteles arachnoides o polegar é ausente (apenas visível em radiografias) [18].

Notas

[1] Hill, 1962 | [2] Aguirre, 1971; Nishimura et al., 1988 | [3] (Vieira, 1944; Nishimura et al., 1988) | [4] Dixson et al., 2004 | [5] Hill, 1962) | [6] Strier 1994 | [7] Zingeser, 1973 | [8] Hill, 1962 | [9] Milton, 1981 | [10] Petroni, 1993 | [11] Aguirre, 1971; Nishimura, 1979; Assumpção, 1983 | [12] Strier, 1990 | [13] Zingeser, 1973 | [14] Milton, 1985; Strier, 1990 | [15] Napier & Napier, 1985; Nishimura et al., 1988 | [16] Lemos de Sá et al., 1990 | [17] Talebi et al., 2005 | [18] Nishimura et al., 1988; Lemos de Sá & Glander, 1993.

[Reproduzido do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Muriquis, conhecido como PAN Muriqui, publicação do ICMBio de 2011. O PAN Muriqui pode ser acessado clicando-se aqui.]